Fatos principais
- Quem: Sasha Grey (nascida Marina Ann Hantzis, 1988), atriz, escritora e musicista americana (Wikipedia)
- Origens: cresceu em Sacramento, numa família de classe trabalhadora; passou por quatro escolas de ensino médio e se formou um ano antes, aos 17 (Wikipedia)
- O plano: trabalhou como garçonete numa churrascaria Black Angus até março de 2006 e juntou US$ 7.000 para se mudar para Los Angeles (Wikipedia)
- Marco: em 2008, virou a mulher mais jovem a ganhar o prêmio de Artista Feminina do Ano da AVN (Los Angeles Times)
- Crossover: papel principal em The Girlfriend Experience (2009), de Steven Soderbergh (Los Angeles Times)
- Depois: gravou o último filme adulto aos 21, em 2009, e anunciou a aposentadoria em abril de 2011; escreveu a trilogia The Juliette Society; entrou para os Halls da Fama do AVN e da XRCO em 2023 (Wikipedia)
Deixa eu começar com algo que as pessoas fora desta indústria nunca querem ouvir: a maioria das carreiras no cinema adulto não é planejada. Ela acontece. Alguém precisa pagar o aluguel, alguém conhece alguém, alguém diz sim para uma gravação e depois para outra, e cinco anos depois olha em volta e percebe que nunca decidiu nada. Estou neste meio há 14 anos. Já gravei com a maioria das grandes atrizes do mundo. Vi centenas de carreiras começarem, chegarem ao auge e sumirem. E posso dizer que “plano” é a palavra mais rara em qualquer set.
É por isso que Sasha Grey é, para mim, a história mais interessante que esta indústria já produziu. Não a mais chocante. Não a mais trágica. A mais interessante. Porque ela fez o que quase ninguém faz: entrou com um plano, executou e saiu no tempo dela, com o mundo inteiro ainda olhando.
Todo mundo conhece o nome dela. Pouquíssima gente entende o que ela realmente conseguiu. Então deixa eu contar como eu vejo.
A parte que todo mundo pula: uma adolescente juntando gorjetas
Quando falam de Sasha Grey, as pessoas vão direto para o prêmio, o filme com Soderbergh, a fama. Pulam a parte chata. E a parte chata é a que importa.
Ela cresceu em Sacramento, numa família de classe trabalhadora. Os pais se separaram e ela foi criada pela mãe. Passou por quatro escolas de ensino médio e mesmo assim se formou um ano antes, aos 17 (Wikipedia). O Los Angeles Times contou que ela estudou teatro dos 12 aos 18 anos (LA Times). Fez aulas de cinema, dança e interpretação no Sacramento City College. E depois fez uma coisa para a qual eu quero que todo jovem lendo isto preste atenção: trabalhou como garçonete numa churrascaria Black Angus até março de 2006 e juntou US$ 7.000 para poder se mudar para Los Angeles (Wikipedia).
Pense nisso. Sete mil dólares em gorjetas, carregando prato. Isso não é alguém que caiu de paraquedas. É alguém que sentou, fez as contas e decidiu.
Vou ser honesto, porque esta coluna existe para isso. No meu mundo, quem chega desesperado é quem acaba sendo usado. Nem sempre, mas muitas vezes. Quando você precisa do dinheiro esta semana, diz sim para o que não devia, assina o que não leu, deixa os outros decidirem quem você é. Quando chega com reserva e um objetivo, você pode dizer não. E o poder de dizer não é o único poder real que alguém tem neste negócio. Sasha entendeu isso antes dos 18. A maioria das pessoas que conheci em 14 anos nunca entendeu.
Ela falava como fundadora, não como artista contratada
Esta é a frase que, para mim, explica a carreira inteira dela. Ela disse ao Los Angeles Times em maio de 2009:
“Parte do motivo de eu ter entrado neste negócio foi para mudá-lo. Posso pegar minhas fantasias e ideias e entregá-las ao público. É tudo uma extensão de quem eu sou.”
— Sasha Grey ao Los Angeles Times, maio de 2009 (fonte)
Leia de novo. “Para mudá-lo.” Ela tinha 21 anos. Não estava falando de ficar famosa ou rica. Estava falando do negócio como um empreendedor fala de um mercado que quer revolucionar.
Na mesma entrevista, o LA Times contou que ela estava abrindo a própria empresa e pretendia ser a própria empresária. Ela disse que queria continuar “pondo o controle nas mãos das mulheres” (LA Times).
Deixa eu dizer por que isso é importante por dentro. Historicamente, esta indústria foi construída por quem está atrás das câmeras e é dono do conteúdo, da distribuição e da marca, enquanto quem está na frente recebe uma vez e fica exposto para sempre. Esse é o modelo antigo. O artista é o produto. A empresa é o negócio. O nome do artista acaba rendendo dinheiro para os outros por décadas.
O que Sasha disse, aos 21 anos, foi: eu quero ser o negócio. E hoje o jogo é exatamente esse. Todo artista esperto que conheço é dono da própria plataforma, do próprio público, do próprio conteúdo. Sasha dizia isso em voz alta há mais de quinze anos, quando não estava na moda e quando a maioria das pessoas em volta dela provavelmente a achava ingênua. Ela não era ingênua. Só chegou antes.
“Eles nunca poderão tirar sua voz”
Em 2012, ela deu uma entrevista ao The Guardian que revela ainda mais sobre o jeito dela de trabalhar. Disse que costumava chegar ao set com as próprias falas, porque os diretores tentavam encaixá-la em personagens batidos (The Guardian). E então ela disse isso:
“As pessoas podem te vestir como quiserem, podem fazer sua maquiagem como quiserem, mas nunca vão poder tirar a sua voz.”
— Sasha Grey ao The Guardian, outubro de 2012 (fonte)
Quero explicar a quem é de fora o que são “personagens batidos”, porque o problema está aí. Em muitos sets, principalmente naquela época, o roteiro é uma fôrma. A babá. A secretária. A vizinha. Os mesmos cinco papéis, em rodízio. O artista é que tem de caber na fôrma, não o contrário. O figurino decide quem você é. A maquiagem decide quem você é. O diretor decide o que você fala.
Chegar com as próprias falas é um gesto pequeno, mas nesse ambiente é rebeldia. Diz: não sou uma fantasia, sou uma pessoa com ideias. E o que aprendi na minha carreira é isto: os artistas de quem as pessoas se lembram nunca são os que cabem certinho na fôrma. São os que a entortam. O público sente quando alguém está ali de verdade, pensando, presente. Essa presença é o que transforma um nome em marca. A voz de Sasha era a marca dela, e ela a protegia como uma empresa protege a marca registrada.
A mais jovem da história, e depois o telefonema de Hollywood
Em 2008, ela se tornou a mulher mais jovem a ganhar o prêmio de Artista Feminina do Ano do AVN (LA Times). Para quem é de fora: é o prêmio principal. O que todo mundo quer. Ela ganhou antes da idade em que a maioria das pessoas termina a faculdade.
Aí veio o momento que fez dela um nome conhecido fora da indústria. Steven Soderbergh, diretor premiado com o Oscar, leu um perfil dela de 2006 na revista Los Angeles e a escalou como protagonista, Chelsea, em The Girlfriend Experience (2009) (LA Times).
Soderbergh disse ao LA Times uma frase que considero o maior elogio que alguém de Hollywood já fez a alguém do nosso mundo: “A Sasha tem uma visão macro de como vai conduzir as coisas. Ela tem um plano de cinco anos.” A reportagem também conta que ele comparou contratá-la a contratar Brad Pitt (LA Times).
Agora, minha opinião, e ela é polêmica. As pessoas gostam de dizer que o crossover aconteceu apesar do passado dela. Eu não acho. Acho que aconteceu por causa do jeito como ela conduziu esse passado. Hollywood não a contratou apesar do plano. Hollywood contratou o plano. Um diretor desses não escala alguém como protagonista porque a pessoa é famosa pelos motivos errados. Escala porque lê um perfil e vê disciplina, inteligência e controle. Foram essas coisas que a destacaram no cinema adulto, e são as mesmas que a tornaram escalável no cinema convencional.
A lição vale para qualquer um, em qualquer área: as qualidades que fazem você brilhar numa sala pequena são as mesmas que te levam para uma sala maior. Você não vira outra pessoa quando a porta abre. Só fica visível.
A saída: por que parar no auge é a jogada mais difícil
Esta é a parte da história dela que eu mais respeito, e a que acho que as pessoas menos entendem.
Ela gravou o último filme adulto em 2009, aos 21 anos. Anunciou a aposentadoria no Facebook em abril de 2011 (Wikipedia). Na entrevista de 2012 ao Guardian, disse que queria parar no auge (The Guardian).
Deixa eu dizer por que é tão difícil. Quando você está no topo deste negócio, tudo te diz para ficar. O dinheiro nunca vai ser tão bom. As propostas não param de chegar. As pessoas em volta, as que ganham com você, dizem que seria loucura parar. E tem outra coisa de que ninguém fala: a própria atenção vira droga. Ser um dos nomes mais buscados do mundo é uma sensação estranha. Sei disso do meu lado da câmera. É muito fácil começar a acreditar que a atenção é você e que, sem ela, você não é nada.
A maioria não sai no auge. Sai quando as propostas acabam, quando a indústria já decidiu por ela. Aí a saída não é escolha. É consequência.
Sasha inverteu isso. Saiu quando podia ter ficado. Ou seja, saiu com vantagem: com nome, com crédito no cinema convencional, com um público ainda curioso sobre ela. Você só escreve o próximo capítulo se fechar o anterior por conta própria. Ela fechou.
E até hoje é criticada por isso dos dois lados. Algumas pessoas da indústria provavelmente a acharam ingrata. Algumas de fora nunca vão deixá-la ser nada além do que foi. Isso é o estigma, e ele é real. Mas eu diria a quem a julga: me mostre alguém que planejou a carreira aos 17, executou aos 21 e se reinventou antes dos 25. A maioria de quem a julgou nunca teve plano para nada.
O que ela construiu depois
Ela não foi só embora. Ela construiu. Pela entrevista ao Guardian e pelo trabalho que veio depois, dá para ver a lista: a banda industrial aTelecine, uma participação vocal no último álbum do Throbbing Gristle e o romance de estreia (The Guardian). Em seguida, o álbum de fotos Neü Sex (2011) e a trilogia The Juliette Society: The Juliette Society (2013), The Janus Chamber (2016) e The Mismade Girl (2018). Ela também faz lives na Twitch desde 2020 (Wikipedia).
Olhe essa variedade. Música, livros, streaming. Ela foi aonde o público estava e levou a própria voz para cada plataforma. A Twitch, em especial, diz tudo: ela entendeu, anos antes da maioria dos artistas, que o futuro é a relação direta. Você e o seu público, sem intermediário.
E em 2023 ela entrou para os Halls da Fama do AVN e da XRCO (Wikipedia). Isso também diz muito. A indústria que ela deixou ainda respeita o que ela fez ali dentro. Ninguém ganha isso queimando pontes. Ganha saindo com dignidade.
A questão do estigma: dá para sair de verdade?
Quero ser franco numa coisa, porque acho que é a pergunta real por trás de toda história como esta. Dá para sair desta indústria? Dá para deixar de ser “a atriz pornô”?
A resposta honesta é: não totalmente. A internet não esquece. Seu nome fica ligado ao trabalho pelo resto da vida. Todo artista tem de aceitar isso antes de começar, e quem diz o contrário está mentindo.
Mas a história de Sasha mostra que existe diferença entre fugir do passado e ir além dele. Ela nunca fingiu que não aconteceu. Não fez a grande turnê de desculpas chorosas. Foi acrescentando capítulos até o primeiro virar só uma parte do livro. É a única estratégia que funciona. Você não consegue apagar. Só consegue diminuir, fazendo todo o resto crescer.
O que eu diria a uma jovem que quer seguir o caminho dela
Como alguém que está neste meio há 14 anos, me perguntam o tempo todo que conselho eu daria a quem está começando. Se eu pudesse falar com uma jovem de 19 anos que tem Sasha Grey como modelo, diria isto:
- Chegue com reserva. Sasha chegou com US$ 7.000 que ganhou carregando prato. Dinheiro no banco é poder de dizer não.
- Tenha um plano com data para acabar. Um plano de cinco anos, como disse Soderbergh. Saiba o que você quer tirar disso e quando vai sair.
- Seja dona de alguma coisa. Seu nome, sua plataforma, sua empresa. Ela queria ser a própria empresária aos 21. Não deixe ninguém ser dono da sua marca.
- Proteja sua voz. Figurino e maquiagem não são a sua personalidade. Leve suas ideias para toda sala em que entrar.
- Construa o próximo passo enquanto ainda está no topo. Sair é mais fácil quando todo mundo ainda te quer.
Isso não é um conselho sobre pornô. É conselho para qualquer carreira em que a sua imagem é o produto. Influenciadores, atletas, músicos: todos enfrentam a mesma armadilha.
Minha opinião (opinião — Maximo Garcia)
Sasha Grey é a melhor prova que conheço de que esta indústria não é destino. É decisão e, como toda decisão, pode ser bem ou mal tomada. Ela tomou como empresária: reserva, plano, marca, saída. Disse ao LA Times que entrou para mudar o negócio, e de certa forma mudou, porque hoje os artistas mais espertos fazem o que ela defendia naquela época: ser dono do próprio trabalho, da própria voz, do próprio público.
Goste dela ou não, ela escreveu o próprio roteiro. Literalmente, quando levava as próprias falas para o set, e no sentido figurado, quando saiu no auge e transformou um nome que o mundo inteiro conhecia em livros, música e uma nova carreira. Em 14 anos, vi muita gente ficar famosa neste meio. Vi pouquíssimos continuarem no controle. Ela continuou. Essa é a história real que ninguém conta.
👉 Mais de mim em maximogarciaworld.com · Quer a coleção completa? Assine em fuckingposters.net
Perguntas frequentes
Como Sasha Grey foi escalada para The Girlfriend Experience?
Steven Soderbergh leu um perfil dela na revista Los Angeles de 2006 e a escalou como protagonista, Chelsea (LA Times).
Quando Sasha Grey se aposentou?
Ela gravou o último filme adulto em 2009, aos 21 anos, e anunciou a aposentadoria no Facebook em abril de 2011 (Wikipedia).
Sasha Grey escreveu livros?
Sim: o álbum de fotos Neü Sex (2011) e a trilogia The Juliette Society (2013–2018) (Wikipedia).
Qual prêmio fez dela a vencedora mais jovem?
O de Artista Feminina do Ano do AVN, em 2008 (LA Times).
Como checamos as informações
Cada fato e cada citação foram conferidos com as fontes abaixo. As citações aparecem como as fontes as publicaram; o que não conseguimos confirmar ficou de fora. As opiniões são de Maximo Garcia e estão identificadas como tal.
Fontes
- Wikipédia: Sasha Grey — https://en.wikipedia.org/wiki/Sasha_Grey
- Los Angeles Times: Sasha Grey / perfil The Girlfriend Experience (21 de maio de 2009) — https://www.latimes.com/archives/la-xpm-2009-may-21-et-sasha-grey21-story.html
- The Guardian: “Sasha Grey: Music is just like the porn industry” (25 de outubro de 2012) — https://www.theguardian.com/music/2012/oct/25/sasha-grey-music-porn-industry




